OLL Blog – Entre Manhattan e Rio de Janeiro: O caso do periódico O Novo Mundo (1870-1879) – Alessandra Carneiro

Capa de O Novo Mundo com a imagem de Manhattan com a ponte do Brooklyn ao fundo: vol IV, nº43, 23/04/1874. Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional.

Entre Manhattan e Rio de Janeiro: O caso do periódico O Novo Mundo (1870-1879)

Alessandra Carneiro

Doutora em Letras pela USP

Um veículo de informação e cultura que promova o american way of life no Brasil não soa incomum no mundo globalizado do século XXI, mas não deixa de despertar interesse e curiosidade quando se trata do século retrasado. O Novo Mundo: Periodico Illustrado do Progresso da Edade foi publicado pela primeira vez em 24 de outubro de 1870 e desde 2012 pode ser consultado na Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. No entanto, manusear um original do periódico é um privilégio que pude ter na Oliveira Lima Library, em 2013, durante meu estágio de doutorado sanduíche financiado pela Capes/Fulbright, nos Estados Unidos. O tamanho grande, a beleza das imagens e o bom estado de conservação de O Novo Mundo impressionam e, sem dúvida, tornam o trabalho com ele muito mais prazeroso.

 Editado em língua portuguesa entre 1870 e 1879, o jornal era impresso em Manhattan e enviado mensalmente aos seus assinantes no Rio de Janeiro. Inicialmente, o fluminense José Carlos Rodrigues mantinha o periódico sozinho, ocupando-se de todas as funções necessárias para a produção e circulação, mas, posteriormente, importantes intelectuais brasileiros contribuíram para a folha, como o poeta maranhense Sousândrade. As matérias de O Novo Mundo (ONM) eram bastante diversificadas, visto que os seus 108 volumes publicados abordam, por exemplo, literatura, política, protestantismo, economia, ciências etc. Era declarado que o escopo do periódico não era publicar notícias atuais, mas discutir os princípios, a política e o progresso da república estadunidense. Assim, o seu intuito era um só: oferecer ao Brasil um exemplo de nação próspera na América que pudesse lhe servir de exemplo de modernização.

 Vale ressaltar que nessa época o Brasil ainda era uma monarquia escravocrata e essencialmente agrária, ao passo que os Estados Unidos – uma república livre e democrática após a Guerra de Secessão (1861-1865) – atravessavam um período marcado pela expansão econômica, além da acelerada urbanização, industrialização e inovação tecnológica. Desse modo, o periódico incentivava a ida de brasileiros aos EUA para conhecer o seu modelo de prosperidade in loco. Nesse sentido, ONM publicava assiduamente propaganda das oportunidades de formação acadêmica existentes nos EUA, tendo Rodrigues, inclusive, assumido a tarefa de guiar e aconselhar estudantes brasileiros recém chegados em Nova York, muitos dos quais se dirigiam à Universidade de Cornell para estudar Engenharia.

Edifício do New York Times onde também ficava a redação de ONM: Vol.4, nº45, 23/06/1874. Pág 162. The Oliveira Lima Library, The Catholic University of America.

Foi também possivelmente incentivado por Rodrigues que Sousândrade mudou para NY em 1871 levando uma de suas filhas para estudar (CARNEIRO, 2016). O poeta contribuiu com algumas publicações assinadas no periódico e manteve anonimamente a coluna Notas Literárias. Ele foi nomeado vice-presidente de ONM em 1875, permanecendo no cargo até 1879. Sousândrade corroborou uma das constantes do jornal que era criticar abertamente o Império brasileiro por meio de publicações concernentes abolição da escravidão.  Por exemplo, em novembro de 1871 foi publicada uma correspondência do poeta intitulada ironicamente A emancipação do Imperador, que refletia sobre a divulgação distorcida da promulgação da Lei do Ventre Livre de 28 de setembro daquele mesmo ano. Uma notícia publicada no jornal Herald de NY atribuía a Dom Pedro II o mérito pelo protagonismo ruma à abolição da escravidão, ao que Sousândrade reagiu ferozmente argumentando que não era iniciativa do Imperador, mas um clamor do povo que ele prudentemente ouviu e que inclusive ameaçava a monarquia. 

No mesmo tom crítico, na edição de março de 1872 saiu o artigo O Estado dos índios no qual Sousândrade condenava o descaso do Império brasileiro pela situação degradante em que viviam os nativos das comunidades ribeirinhas do Amazonas. O argumento do poeta nesse artigo era que o governo deveria investir mais em missionários e educadores capacitados para atuarem junto aos autóctones porque, se bem preparados, eles seriam trabalhadores livres mais adequados à substituição do trabalho escravo, na iminência do seu fim. Para endossar sua opinião sobre a colonização do sertão brasileiro utilizando os próprios nativos, Sousândrade cita no mesmo artigo o naturalista amigo de Rodrigues Charles Frederick Hartt, professor na Universidade de Cornell, que teria voltado do Amazonas há pouco e concluído que o índio seria melhor elemento de população que os imigrantes europeus, pois seriam mais inteligentes que, por exemplo, os irlandeses que emigravam para os

Colégio do Sagrado Coração, instituição de ensino católica voltada para meninas onde estudou a filha de Sousândrade, Maria Bárbara. Vol. II, nº14, 24/11/1871, pág. 25. Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional.

EUA.

Além de Sousândrade, outros homens de letras importantes contribuíram para a revista de Rodrigues, como o engenheiro André Rebouças, Salvador de Mendonça (nomeado cônsul geral do Brasil em NY em 1876) e o ilustre Machado de Assis. No caso deste último, houve uma única publicação feita sob encomenda de Rodrigues no volume de março de 1873: Notícia da atual literatura brasileira – Instinto de Nacionalidade; mas que causou impacto pelo seu posicionamento crítico ao romantismo brasileiro e à dependência ao referencial cultural europeu ainda em voga no Brasil. Considerando o afinamento de Rodrigues com as ideias aventadas por Machado, já se argumentou que a importância de ONM para a literatura brasileira se daria por constituir um suporte relevante da transição entre as tendências literárias românticas para a realista-naturalista/parnasiana no Brasil. (ASCIUTTI, 2010). 

Portanto, O Novo Mundo congregou brasileiros empenhados em assimilar o que consideravam o caminho que levaria o Brasil retrógrado à modernidade. Esses homens de letras não eram, entretanto, passivos à ideia de americanização da nação, pois antropofagicamente (salvaguardado o anacronismo do termo) buscavam no estrangeiro conhecimentos e ações que pudessem beneficiar o país de modo a torná-lo uma potência socioeconômica na América do Sul que fizesse par com os Estados Unidos. No século XIX, um projeto geopolítico desse calibre para a América configurava-se um contraponto inédito ao poder europeu, por isso a importância de ONM.

Referências 

CARNEIRO, Alessandra da Silva. O Guesa em New York: Republicanismo e Americanismo em Sousândrade. 2016. 214 f. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.

ASCIUTTI, Mônica Maria Rinaldi. Um lugar para o periódico O Novo Mundo (Nova York,1870-1879). Dissertação (Mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010.

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