OLL Blog – As Servinas na Oliveira Lima Library Parte II – Pablo Iglesias Magalhães

Seguimos com a segunda parte do texto do Professor Pablo Iglesias Magalhães sobre as Servinas da nossa coleção. Se você perdeu a parte I, pode encontrar o texto aqui 

 

As Servinas na Oliveira Lima Library 

Parte II: Serva entre o processo de Independência e o Segundo Império

Pablo Iglesias Magalhães

Professor dos cursos de História, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais  e Vice-Diretor do Centro das Humanidades da Universidade Federal do Oeste da Bahia.

Manoel Antonio da Silva Serva faleceu no Rio de Janeiro em agosto de 1819. A tipografia já funcionava em sociedade com seu genro José Teixeira de Carvalho, desde junho daquele ano. A sua parte foi herdada pela viúva, Maria Rosa da Conceição Serva, e a oficina de impressão passou a se chamar Typographia da Viuva Serva, e Carvalho (1819-1827).  Diferente da sua primeira fase, na qual operou em uma conjuntura de prosperidade econômica e relativa tranquilidade política em Salvador, a empresa funcionaria em um período turbulento da História da Bahia, assinalado pela Revolução Constitucionalista (fev. 1821), a Guerra de Independência (1822-1823)  e a Revolta dos Periquitos (nov.1824), sendo que, nesta última ocasião, os prelos da Serva foram transportados à bordo da corveta Maria da Glória, para continuar imprimindo papéis do governo na Baía de Todos os Santos. 

Entre 1821 e 1822, a Serva deu prelo a uma série de papéis constitucionais, cujos raríssimos exemplares se encontram dispersos em bibliotecas públicas e coleções particulares no Brasil, Portugal e Estados Unidos. Esse conjunto ainda não recebeu a devida atenção pelos historiadores. Na OLL, há um exemplar das Reflexões sobre o decreto de 18 de fevereiro deste anno offerecidas ao povo da Bahia por Philagiosotero. O folheto com 11 páginas já começa registrando que “se o respeito ao Monarcha he nas Monarchias o primeiro dever do Povo, he tambem certo que huma justa consideração aos direitos do Povo he da obrigação do Principe, e qualquer ataque a estes direitos chama a resistencia legitima de huma Nação contra o mesmo Rey, que desconhece as suas funcções verdadeiras.” Philagiosotero é pseudônimo do paulista Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845), que ficou preso por quatro anos na Bahia, por ter tomado parte na Revolução Pernambucana (1817).  Na OLL, ainda consta um exemplar da Relação dos Successos do Dia 26 de Fevereiro de 1821, escrita no Rio de Janeiro em 10 de Junho de 1821 e o controverso folheto Exame Analítico-Crítico da Questão: o Rei, e a Família Real de Bragança devem, nas Circunstâncias Presentes, Voltar a Portugal ou Ficar no Brasil? (1821).

A morte de Manoel Antonio da Silva Serva e as rupturas institucionais e comerciais entre Brasil e Portugal, produzidas pela Independência, interrompeu o fluxo de livros baianos para a Europa. A Typographia de Serva, influenciada por essas transformações, foi gradualmente convertida em uma tipografia nacional e imperial, particularmente a partir de 1828. Naquele ano, os dois filhos de Maria Rosa da Conceição, Manoel Antonio da Silva Serva (1802-1846) e José Antonio da Silva Serva (1808-1878), se associaram a sua mãe e criaram a Typographia da Viuva Serva e Filhos (1828-1836).  Com o encerramento das atividades da Typographia Nacional da Bahia (1823-1831), a Serva passou a cumprir a função de imprimir papéis do governo imperial e provincial. Os impressos baianos daquele período são mais raros do que os da primeira fase da Serva, pois a interrupção na sua exportação fez com que seus papéis circulassem apenas nos trópicos, ficando mais expostos à umidade e insetos. 

Pigault-Lebrun. Monsieur de Kinglin, ou : a presciencia Bahia: Na Impressão da viuva Serva, 1829. Oliveira Lima Library, The Catholic University of America.

As servinas pós-1822 também ficam mais escassas na OLL. Há a segunda novela impressa na Bahia, Monsieur de Kinglin, ou a presciência de Mr. Le Brun. A primeira novela impressa na Bahia fora uma tradução da Atalá (1819), de Chateaubriand, que havia sido impressa pela primeira vez em Lisboa em 1810 e censurada pelas autoridades inquisitoriais portuguesas em 1812. Monsieur de Kinglin também não foi bem vista à época, por não estar de acordo com os padrões morais e religiosos vigentes, tendo, contudo, a peculiaridade de declarar ter sido publicada “Na Impressão da Viuva Serva”.  Até hoje só encontrei dois livros com essa declaração editorial, atribuindo-se exclusivamente à Maria Rosa da Conceição Serva, que é a primeira proprietária de uma casa editorial no Brasil. Poucas foram, contudo, as novelas impressas na Serva e quase todas, se não todas, traduções do francês para o português. 

Na OLL, uma obra da Serva e Filhos se destaca, até o presente, pelo critério da unicidade. São as Reflexões Criticas Sobre a Administração da Justiça em Inglaterra,  tanto no civel como no crime, e sobre o jury, n’uma serie de cartas a um amigo (1829). Não foi possível encontrar outro exemplar dessas Reflexões Criticas, mas ela foi ofertada no Catalogo nº 14, de 1930, da Livraria Coelho, de Lisboa, classificadas in-8º de 34-53-60 páginas, ao preço de 40$00, em brochura. A primeira edição foi tirada na Impressão Régia de Lisboa em 1826 e seu autor foi José Joaquim Ferreira de Moira (c. 1776-1829), apelidado de “Doutor Macaco”, pelo poeta Manoel Maria Barbosa du Bocage. 

Em 1836, a Typographia da Viuva Serva e Filhos se dividiu em duas oficinas, a primeira que continuou na Cidade baixa e outra no Pelourinho, em uma casa na Rua do Bispo, n.o 29, com o nome de Aurora de Serva e Comp. Essa segunda oficina foi administrada pelo filho mais velho do casal Serva. Intelectual modesto, editor competente e impressor talentoso, que, entre 1836 e 1846, conseguiu restabelecer o prestígio e a apurada qualidade gráfica das servinas, comprometida pela baixa qualidade editorial desde a Independência. Serva transferiu sua oficina, após a Sabinada (7 nov. 1837 – mar. 1838), para outra casa, na quina oposta ao Aljube, n.o 6. Essa casa, contudo, foi destruída por um incêndio na madrugada de 31 de agosto de 1840.   

Moira, José J. F. Reflexões Criticas Sobre a Administração Da Justiça Em Inglaterra, Tanto No Civel Como No Crime, E Sobre O Jury, N’uma Serie De Cartas a Um Amigo. Bahia: Serva, 1829. Oliveira Lima Library, The Catholic University of America.

Manoel Antonio da Silva Serva, filho, retornara para o mesmo prédio onde seu pai estabeleceu a imprensa na Bahia, no morgado de Santa Bárbara. Os livros impressos na última fase da oficina em Salvador (1839-1846) são preciosos. Na OLL existe um exemplar de um livro dessa fase, de autoria do próprio Serva, intitulada Exposição das razões que reclamão o tratado de commercio entre o Brasil e Portugal (1843), que foi oferecida a Associação Comercial da Bahia.  Serva, contudo, faleceu repentinamente aos 44 anos, solteiro e sem herdeiros. Sua mãe e irmão mais novo logo venderam a livraria. A Typographia de Serva encerrou seus trabalhos na Cidade da Bahia em 1846.

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